Tratado sobre a mulher gaúcha- by Flavia Coradini-
Tratado sobre a mulher gaúcha
Apesar da formalidade do título, é lógico que este texto não tem nenhuma fundamentação. Ele começou a se formar na minha cabeça depois de um papo animadíssimo com velhos e novos amigos numa mesa de bar. Entre os novos amigos estava uma gaúcha, como eu, que soltou uma frase interessante: você não é exatamente amiga de uma mulher gaúcha, até ter um bom desentendimento com ela. Acho que para amigos isso não serve tanto. Mas não lembro de nenhum relacionamento que eu tenha tido que não passou pelo tal papo para colocar os pingos nos is. Uma conversa/discussão com teor suficiente para colocar um ponto final na bagaça, mas que foi fundamental para tudo ficar às mil maravilhas.
Coincidência ou não, fiquei divagando a respeito. E faz um sentido enorme que nós, mulheres gaúchas, tenhamos esta peculiaridade, essa enorme herança cultural. Somos “faca na bota” mesmo.
Sem generalizações, viemos de um estado em que, durante muito tempo, ter um bom cavalo era muito mais importante do que ter uma grande mulher por perto. Mesmo as novas gerações que já não sentem isso tão na pele, carregam o histórico de parentes que eram machistas (muitos fingem que não são mais) e de mulheres que sofreram preconceito quando não fizeram exatamente-o-que-a-sociedade-esperava-que-elas-fizessem. De novo, sem generalizações, somos exigentes para caralho, temos pé atrás, temos postura e pontos de vista muito claros, gostamos de expressá-los e, em hipótese nenhuma, levamos desaforo para casa. Pela honra e pelos genes das nossas mulheres ancestrais, que tanto sofreram e tanto nos influenciaram.
Não, nós não vamos sair queimando sutiãs nem vestidos de prenda por aí. Mas somos um pouco mais inflamáveis do que o padrão feminino. Aliás, quando as pessoas acham que a gente está alterada, para nós a discussão ainda nem começou. Somos naturalmente alteradas, para o bem e para o mal. Tudo isso para dizer que as mulheres gaúchas ladram mas não mordem. Isso, se você manter uma significativa distância dos nossos calos.
PS: Ler este texto pronto me deixou com uma impressão que eu odeio, abomino, detesto. A de que os gaúchos acham que são pessoas diferentes ou especiais. Pedi a opinião da Luciene, amigona, gaúcha e mulherão, que espontaneamente sentiu a mesma coisa. Não estou falando de diferenças aqui, mas apenas de peculiaridades. Só posso escrever com propriedade sobre a minha própria experiência. Este sentimento de superioridade é justamente o que estou questionando neste texto. Não faria nenhum sentido reafirmá-lo. Tá vendo como o estigma é forte?

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